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terça-feira, 17 de maio de 2016

MarathonDesSables: 257kms no Sahara: a aventura contada na 1.ª pessoa! Parabéns Ana Leça Umbelino

Como muitos de vós têm conhecimento decorreu em Abril, no deserto do Sahara, em Marrocos, a MarathonDesSables. Foi uma ultramaratona que foi dando com alguma frequência nos meios de comunicação social, mais ligados à modalidade, e nas redes sociais,  até porque tivemos mais uma grande prestação do Carlos Sá e da equipa  I Run 4 Hope, tendo alcançado o 2.º lugar por equipas e 8.º à geral. Mas, no meio de tantos profissionais da modalidade, há os amadores, aqueles que abdicam de tanta coisa para se preparem durante meses para este exigente desafio.
É o caso da Ana Leça Umbelino, uma Madeirense que iniciou e brilhantemente concluiu este desafio. Deixo-vos a descrição intensa e apaixonada da sua travessia do deserto. Um exemplo de determinação e uma motivação para também atravessarmos os nossos desertos….
Por Ana Leça Umbelino….


“Parece incrível que já passou um mês desde que terminei a MarathonDesSables (MdS)!
É algum tempo, mas só agora me sinto capaz de partilhar o impacto que esta aventura teve em mim. Parece que precisei deste mês para digerir e integrar a experiência. Finalmente as palavras saíram! E são muitas…
Na partida da 1ª etapa da MdS deste ano alinharam-se 1108 pessoas de 49 países, e percorremos juntos 257 km no deserto do Sahara em Marrocos, ao longo de 7 dias de prova. Completaram a prova 973 pessoas – incluindo eu!
Foi uma semana de imersão numa natureza dura e quente: a dormir no chão; a transportar às costas a roupa, cama e comida; a tomar banho com meio litro de água; a acordar e adormecer com um nascer e pôr-do-sol fantástico; e com um céu estrelado como teto acolhedor nas noites frescas do deserto.
O primeiro dia foi o êxtase total: UAU! Finalmente a viver o meu sonho dos últimos 4 anos, a fazer uso do treino intenso dos últimos 14 meses. A partida é dada ao som da música Highway to Hell dos AC/DC, e sente-se a alegria dos mais de 1100 participantes – mal sabemos o que nos espera!
Começamos por atravessar os 12 km das belíssimas dunas de Merzouga, e uma tempestade de areia mostra-nos que o deserto “não está para brincos”. Para agravar, a minha mochila está pesada “para burro” - de carga e não para mim! São 8,5kg mais os 3 da água que recebemos ao arranque – ui! Doem-me os ombros só de me lembrar.
Afinal, as recomendações do meu treinador Rory Coleman de cortar no peso, incluindo na comida - mesmo que tenha um pouquinho de fome - estavam certas…. Este peso todo é que não!
À chegada do 1º dia já se vê escrito nalgumas testas, incluindo na minha, “sabia que isto ia ser duro, mas assim tanto??”.
Confortam-me as mensagens que recebo impressas em papel no final do dia, e as palavras cheias de energia positiva, força e motivação que recebo de todos aqueles que me acompanharam, entre família, amigos, conhecidos e agradáveis desconhecidos. Todos os dias carregaram as minhas baterias – OBRIGADA!
O 2º dia foi o mais duro para mim. Chegaram as bolhas nos pés, e a dada altura parecia que tinha canivetes a entrar de rajada em cada sola do pé. Pior do que as dunas, é aquele terreno plano, mais plano que um aeroporto, enorme a perder de vista, cheio de pedrinhas afiadas, em que mesmo que lá andasse a fazer ballet aterrava sempre em cima de bicos.
E a pessoa anda, e anda, e anda, e está sempre no mesmo sítio. Com as mesmas pedras. O mesmo calor. As mesmas dores - umas dores tão fortes e permanentes que parecia que estava a ter outro filho. Ou melhor, dois filhos ao mesmo tempo, um por cada pé!
Comecei a entrar em desespero, e a dúvida chegou. Pensei: “Bom, seja como for, não tenho que fazer isto, vou ali à organização e desisto: quem gosta de mim, vai continuar a gostar; e quem não gosta… azarinho!”
Mas a dor que senti só de imaginar desistir era insuportável! “Os pés e o corpo podem doer, daqui a uns dias estão bem. Agora, a dor de desistir vai durar a vida inteira. Não! Desistir não é uma hipótese.”
Então tive que arranjar uma estratégia, para acalmar as emoções, e tomar conta do corpo, pois quando as emoções sobem, a inteligência desce!
Nesta prova há muito mais do que andar (sim, andar, porque correr está quieto, foi pouco ou nada!). É preciso gerir a hidratação; tomar os sais na quantidade adequada (em falta causam paragens musculares, incluindo cardíaca e em excesso provocam retenção de líquidos e dores nas pernas); cuidar da nutrição mesmo quando não apetece comer; manter a temperatura do corpo baixa.
E há que ter o discernimento e clareza para conseguir ler os sinais do corpo, percebendo se são sinais de alerta ou se são as emoções a tomar conta do sitio. Interessante. Difícil. Enfim, era isto que eu ansiava experienciar em mim mesma, mas caramba, tive que pagar com o corpinho!
Arranjei uma sequência de ações para cada km que segui religiosamente a partir do 3º dia. Nos primeiros 200m de cada km, um check-up físico (como me sinto em cada bocadinho do meu corpo, uma espécie de raio-x mental). Nos 200m seguintes, fazer uma técnica respiratória do yôga que mantém a temperatura do corpo baixa. Dos 400 aos 500m, fazer de conta que estou em turismo: tirar fotografias, falar para a gopro, passear. A segunda metade do km, vocalizar mentalmente um mantra, para aumentar a concentração e serenar a mente. Adicionalmente, parar 3 min a cada 5km, para além dos postos de controlo, e tirar a mochila para dar um descanso às costas. Bem, no meio disto tudo, parece que mexer as pernas é o mais fácil!

Esta estratégia funcionou bem e no final do 3º dia sentia-me melhor do que no final do 1º.
O 4º dia era o dia mais longo, com 84,3 km para percorrer. Até então, o máximo que tinha feito era 43km. Ia fazer 84,3km pela primeira vez, depois de três dias consecutivos a andar e já com 112,8km nas pernas.
A estratégia para este dia tinha que ser um pouco diferente: chegar o quanto antes ao posto 3, até ao qual os tempos limites eram curtos. Depois, os tempos espaçavam, até um total de 34h de tempo limite.
À partida escolho um par de pernas para seguir, com um ritmo suficientemente rápido, mas que eu conseguisse acompanhar. Segui uma senhora britânica. Excelente. Ficou tão ritmado que os pés até ficaram dormentes, e deixei de sentir dores.
Num instante me pus no posto 1, recolho a água e avanço sem parar. Há agora que subir uma montanha, o El Otfal Jebel, uma descida divertida quebrando a monotonia do deserto, e seguir até ao posto 2 no km 21,7.
O sol já vai alto e o calor aperta quando atravessamos o lago seco. São 3 ou 4 km que parecem 100: sempre igual, sempre quente, sempre concentrada para manter as emoções numa caixinha.
Mas é neste lago que os meus dois demónios saltam cá para fora e saem definitivamente do escuro. Por um lado, o medo de não chegar lá, o medo de falhar – a última vez que falhei um sonho demorei anos a recuperar, e o medo criou raízes. 
Por outro lado, o medo da integridade física. Quero chegar ao fim, sim, mas não a todo o custo – quero voltar inteira.
Parece que os vejo ali à minha frente – é o delírio do calor. 
Assim como assim, converso com eles, dou-lhes a mão e avanço. De mãos dadas com os meus medos.
É no km 30, quando paro para descansar à sombra de umas rochas, que volto a encontrar a senhora britânica que me levou depressa até ao posto 1, nessa mesma manhã. Só que não a encontro da melhor forma, teve um choque de calor e está ligada ao soro. Treme que nem varas verdes quando lhe entornam água pela cabeça abaixo, pois a sua temperatura tem obrigatoriamente que baixar. Está de tal forma que têm que lhe cortar a t-shirt para continuar a arrefecer. A sua MdS ficou por ali.
Esta mulher representa os tais demónios que falei. Sim, é preciso acelerar e arranjar um ritmo para avançar. Mas esse ritmo tem que garantir a vida, senão tudo pára. E é assim, no deserto, e lá fora. O equilíbrio, a dualidade.
Depois deste episódio com a senhora britânica, sigo a processar até ao próximo posto. Nas várias descrições que li e ouvi sobre a Marathon des Sables, quase todas diziam que não dá para explicar a experiência: cada um vai lá viver o “seu” deserto, conhecer os seus fantasmas, queimar o que estivesse velho e mudar o que houver para transformar. É isso.
No posto 4 recebemos um tubo fluorescente para pendurar na parte de traz da mochila quando anoitecesse. Observa-se um carreiro de luzes fluorescentes ao longo do caminho, engraçado.
Acompanho o sol a pôr-se e as estrelas a chegar. A temperatura desce e… começo a correr! 
Até então não me tinha apercebido no real impacto da temperatura no corpo e na capacidade de me mexer. Estava quente sim, e até certo ponto não me incomodava – acho que estava mentalizada para isso, afinal é um deserto!
Era já meia-noite quando chego ao km 55, no posto de controlo 5. Sento-me numa cadeira de pano que por lá havia, e fiquei imóvel, a saborear o céu. Não porque quisesse, mas porque por mais que desse a ordem, o corpo não se mexia. “Pronto. É aqui e agora. Neste deserto agreste, com um céu lindo de morrer. Obrigada vida, foste boa.”
Passou-se uma hora. “OK, parece que não foi desta”. Já me conseguia mexer ligeiramente. O suficiente para tirar o saco cama da mochila e estender-me ao comprido mais uma hora. Acordei com um italiano maluco (como eu!) a praguejar em inglês, italiano e sei lá mais o quê. Está na hora de me por a andar, pensei.
Arrumei a mochila, respirei fundo e foquei-me nos 10 km que teria que percorrer até ao próximo posto. Se pensasse em sequer mais um metro, o corpo bloqueava.
Como é que se come um elefante? Às fatias, bem fininhas. Cada passo, cada fatia. Um de cada vez. Não foi nada fácil este retomar do posto 5. Depois de dar a entender ao corpo que ia dormir, fazê-lo levantar e continuar a andar, quando todos os processos biológicos já estão no modo off – não há justiça!
Estava uma noite delirantemente bonita, aqui o céu parece que é mais tudo: mais profundo, mais brilhante, mais estrelado, mais presente.
A dada altura dou comigo sozinha, sem ninguém à distância da vista. Apenas eu, o céu, as estrelas e as luzes dos pauzinhos fluorescentes que aqui e acolá marcam o percurso. Vou a caminhar sobre aquele chão interminável cheio de pedrinhas bicudas, onde cada passo doí até à alma. Nem sabia que a alma chegava aos pés. Começo a rir, às gargalhadas, não consigo parar. Devo estar maluca, perdi o juízo, o pouco que me restava.
O resto da noite fi-la quase toda na minha companhia, à parte de um ou outro ratinho do deserto (são bonitinhos, pequeninos e brancos, brilhavam com a luz do frontal). Um passo de cada vez. Sem pensar. Sem parar. Demorei quase 3 horas a fazer cada bloco de 10km entre os postos 5 e 6, 6 e 7. Acho que até o meu filho de 5 anos fazia aquilo mais depressa!
Quando arranco do posto 7 para os últimos 9 km até ao acampamento, já estava a amanhecer. Não era o que eu queria, mas foi o possível. Parei quase uma hora nos postos 6 e 7, o corpo não deixava que fosse de outra forma.
Estes últimos quilómetros são em linha reta, sempre a ver o acampamento. Parecia um filme de terror, ando, ando e não saio do mesmo sítio.
A temperatura começou a subir muito mais rápido nesta manhã do que nas anteriores, e neste plano infindável não havia nada para além do chão e das pedrinhas, nem um arbusto ou pedra para me sentar um instante a recuperar fôlego. Felizmente aparece um carro da assistência médica e fico lá parada uns minutos na sua sombra a refrescar as ideias. Como é que eu ia arranjar força para me arrastar até à meta?
Passa por lá um rapaz, acho que irlandês, e apanho boleia dele até ao fim. Falámos, falámos, falámos, e assim enganámos o tempo.
Foram 26 horas, 38 minutos e 6 segundos. Uma energia brutal entra em mim no momento em que cruzo aquela meta. Chego à tenda com um sorriso de orelha a orelha.
Este dia é passado a dormir e a descansar, convivendo com os companheiros da tenda 9.
Vou para a 5ª etapa com a sensação de que são “só” 42,2km. Canja de galinha!
É um dia agradável – ok, nesta fase as bolhas de água, os canivetes nos pés e os ombros dormentes já fazem parte da minha normalidade, faço a maior parte do dia na companhia de um senhor com nacionalidade americana mas que nasceu no Paquistão, estudou noutro sítio que não me lembro e vive na China.
Conversador e bem-disposto, temos o gosto pela vela e pelos barcos em comum. Um dia a caminhar no deserto deu para contarmos a história da nossa vida um ao outro, com o à-vontade interessante que há quando se tem este diálogo com alguém que potencialmente nunca mais iremos encontrar. Foi giro, e assim cortámos a meta. A última grande meta.
O que não foi assim tão giro foi ter que esperar pelo dia seguinte e caminhar mais 17km da etapa de caridade até chegar ao fim e à tão ambicionada medalha. Não havia necessidade. Mas é assim, às vezes temos de fazer o que temos de fazer. Apesar disso, foi um dia bem passado, na companhia do António Vale, “irmão” português da tenda 9, e que tornou mais curtos estes 17 km.
257 km. 7 dias. 64 horas a percorrer o deserto. Foi uma semana longa, intensa, dura, quente.
Foi uma semana completa e de partilha. Com os meus companheiros da tenda 9, partilhei barrinhas, frutos secos e comida liofilizada (aquela comida de expedição, seca e cheia de condimentos para disfarçar o sabor estranho que nos faz dá valor à comidinha de casa).
Mas também sentimentos, bolhas nos pés, gargalhadas e dores musculares. Estavam lá sempre quando eu chegada (sim, eu era a tartaruga da tenda!), com um sorriso amigo, as aventuras do dia para partilhar e uns bocados de fita e eosina para ajudar a cuidar dos pés e das costas! Vocês foram a minha família, apoio e motivação ao longo daqueles 7 dias: António Vale, Joao Silveira, Palmira Kopi Kopi Kopi, José Cabral, Jonathan Hewlett, Carlos Sá - Ultra Runner. OBRIGADA!
Conheci também o Angel do Peru, que me acompanhou no duro 2º dia, o Adil dos EUA, a Louise do Reino Unido. E o Mario Machado, que participou na primeira edição da MdS, e nos acompanhou a cada dia com humor e boa disposição. 
Para além de todos aqueles com quem fui falando e não me lembro nem do nome nem do país.
A Marathon des Sables fez-me ver, viver, sentir a FORÇA: a minha, a dos outros, a da natureza. Uma natureza a quem todos nós pertencemos, e não o contrário. Por mais arranha-céus que se construa, telemóveis que se invente ou viagens à lua que se faça, nós somos propriedade da mãe-natureza, ponto final.
Mas nós também somos parte dessa mãe-natureza, e temos em nós esta força, esta energia, esta capacidade imensurável de crescer, superar, transformar. De matar e fazer nascer. É uma opção de cada um.
Observei nos olhos dos homens e das mulheres que comigo percorreram este deserto a dúvida, o medo, o cansaço. E mesmo assim, avançaram. Outros, bem fisicamente, não aguentaram a pressão.
É preciso querer. E depois, acreditar. E depois, avançar. E se vierem os medos, as dúvidas, as inseguranças, dar-lhes a mão, compreender a sua presença e avançar na mesma, com medo e confiança ao mesmo tempo.
Venho mais FORTE, mas sobretudo mais HUMILDE. 
Obrigada, ‪#‎MdS! Obrigada ‪#‎deserto do ‪#‎Sahara!”


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